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domingo, 15 de janeiro de 2017

É possível aprender Japonês (ou outros idiomas) com a internet?

Nos dias de hoje são cada vez mais comuns as pessoas que falam mais de um idioma. Bilíngues têm mais chances no mercado de trabalho, facilidade ao viajar, acesso a culturas distintas e até uma série de benefícios cerebrais (alguns aqui e aqui).

Em geral aqueles que falam fluentemente um segundo idioma (alguns até mais de dois) aprenderam porque moraram em outro país ou sua família(ou parte dela) vem de outro país. Mas e aqueles que não tiveram a oportunidade de conviver diretamente com uma cultura distinta e querem aprender um novo idioma?

O mais comum é que essas pessoas passem a frequentar uma escola de idiomas. Mas na maioria das vezes isso simplesmente não funciona. São muito comuns os casos de pessoas que frequentam cursos de Inglês ou Japonês por anos a fio e mesmo assim não conseguem manter uma conversa com um falante nativo, não conseguem assistir um filme sem legenda ou sequer fazer uma reserva em um restaurante por telefone.

Muitos culpam as escolas de idiomas, o que é uma grande injustiça, afinal é humanamente impossível aprender um idioma com quatro horas de aula por semana. É preciso muito mais que isso.

Basta pensar em como aprendemos nosso idioma, ou como bilíngues aprendem sua segunda língua. É um processo de contato contínuo, todos os dias, a maior parte do tempo.
Desde pequeno sua família fala com você em Português, seus vizinhos, amigos, funcionários de lojas, restaurantes, supermercados,etc. todos falam Português com você.
Programas em Português passam na televisão e no rádio, as revistas e livros na estante estão em Português, seu computador e celular também provavelmente estão em Português.
Tudo isso faz com que você se acostume mais e mais com o idioma, e que se sinta confortável com o idioma.
Obviamente em outro país tudo isso seria em outro idioma.

Porém viver em outro país não é algo tão simples, muito menos barato. O truque então é forjar um ambiente artificial de imersão, e é ai que entra a internet. 


A internet tem mudado a forma com que muitas coisas são feitas, desde simples cartas que foram substituidas por e-mails, até processos burocráticos e bancos de dados imensos que já não existem mais em papel. Além disso muito da economia atual e comunicação depende quase inteiramente da internet. A educação também tem mudado muito com a internet - instituições de ensino oferecem cursos online, palestras são gravadas e disponibilizadas na rede, livros são digitalizados, etc.

Criar um ambiente artificial de imersão é simples, basta mudar tudo que for possível que você faz em Português para Japonês ou Inglês (ou o idioma que quiser). TV e rádio em Japonês, livros em japonês, mangá em japonês, filmes e séries em Japonês (com legenda em Japonês ou sem legenda), podcasts em Japonês, e assim por diante.
O importante é fazer o idioma parte da sua vida diária, quanto maior o tempo de exposição melhor.

Existe um ponto essencial para aprender um idioma desta forma, é necessário que o conteúdo esteja em um nível acessível ao aprendiz, um pouco além do conteúdo já dominado. Assim o aprendiz aumenta seu vocabulário naturalmente apenas consumindo mídia estrangeira (para uma explicação mais complexa recomendo ler a teoria de Stephen Krashen sobre aquisição de língua aqui).

Stephen Krashen, sua teoria ajudou muitas pessoas a se tornarem poliglotas


A teoria de Krashen também explica outro ponto importante - input (ouvir e ler) é essencial para o desenvolvimento linguístico; output (falar e escrever) não é essencial, mas sim um produto da aquisição. Ou seja, quanto mais você ouve e lê, melhor vai ser sua capacidade de flar e escrever.
Este ponto é contestado levemente por alguns poliglotas, mas ainda assim todos consideram input muito mais importante que output. Steve Kaufmann, poliglota do Lingq (site que eu recomendo muito) comenta em um de seus vídeos que 90% da aprendizagem de idiomas é input, e 10% output/prática. Alguns famosos professores de idiomas do Brasil também são entusiastas como Luiz Passari e Mairo Vergalha.

Não adianta assistir anime em Japonês o dia todo sem entender nada que você não vai aprender nada. Você precisa consumir conteúdos que estejam de acordo com seu nível, pouco a pouco, até chegar em um nível em que consiga entender qualquer tipo de material.

Assistir anime pode impulsionar seu aprendizado de Japonês (fonte da imagem)


Até chegar em um nível avançado é necessário estudar algo mais simples, como material didático feito para estrangeiros e livros infantis. Você pode começar mudando seu celular para Japonês e aprendendo as palavras de cada menu.


Mas e os cursos presenciais?
Cursos presenciais podem ser muito bons para adquirir uma base no idioma, conhecer outras pessoas que também admiram culturas diferentes e/ou têm interesse em aprender, tirar dúvidas com um professor, ajudar a manter uma rotina de estudos, e obviamente para praticar o idioma.
Mas não adianta jogar toda a responsabilidade do seu aprendizado em um curso, é necessário assumir a responsabilidade e se esforçar para aprender.


Para saber mais:




https://www.facebook.com/pagina.dekyoto/

domingo, 26 de julho de 2015

Ah, então você estuda Japonês...

Eu não lembro quando comecei a ter contato com a cultura japonesa, talvez tenha sido com desenhos e seriados que eu assistia na tv quando criança, ou talvez com video games que jogava nesta época. O que lembro é que desde pequeno esse interesse no Japão sempre esteve comigo, algumas vezes fui mais interessado e em outras menos. Mas sempre achei interessante esse país que fica do outro lado do mundo.

Conforme fui me tornando adulto fui trocando os desenhos e seriados pela literatura e os video games pela música. Além claro de desenvolver um interesse na história e política do país, que são muito diferentes das Américas.

Fui bastante criticado por ter nutrido esse interesse particular, as críticas aumentaram exponencialmente quando comecei a estudar o idioma japonês. Ainda escuto algumas críticas de brasileiros por estar no Japão me inteirando mais da cultura.
Uma típica rua comercial japonesa

Por ter acontecido já há alguns anos, antes da popularização da internet e da consequente propagação da informação, eu achava que isso tinha mudado. Ledo engano, nada mudou. Infelizmente ainda existe uma mentalidade conservadora em relação a ideias novas e novos conhecimentos no Brasil.


É óbvio que ter interesse em algo diferente, do outro lado do mundo, sem aparente relação direta com a cultura e tradição brasileira, não seria totalmente bem vindo no Brasil, país conservador e eurocêntrico. Algo muito chato que creio que vá demorar a mudar.

Numa conversa que tive recentemente com um amigo que possui um site sobre ensino de Japonês
 (AulasdeJapones.com.br) fiquei sabendo que essas críticas a pessoas que estudam Japonês ou que simplesmente tem interesse no Japão infelizmente continuam. Depois dessa conversa decidi escrever esse post enumerando as críticas que me foram mais comuns e como eu responderia hoje a elas. 

Espero que seja um estímulo não apenas a aqueles que tem interesse no Japão, mas também a todos aqueles que tem algum interesse fora do mainstream da cultura mas sofrem com críticas de gente ignorante.
Listei algumas perguntas e afirmações que ouvi, e ainda ouço, bastante durante todos esses anos. Muitas vezes não soube como responder, mas hoje eu tenho algumas boas respostas para cada uma delas.

Por que você estuda Japonês?
E por que não?
Claro que é possível listar uma série de benefícios de estudar um idioma estrangeiro, mas na verdade não é necessário.
As pessoas têm gostos diferentes, algumas têm vontade de aprender Japonês. Simples assim.

Mas pra que você vai usar isso? 
Pra tudo.
Tudo que eu posso fazer em Português, eu também posso fazer em Inglês ou em Japonês.
Posso ler livros, assistir filmes, conversar com meus amigos, ouvir música,etc.

Não é uma língua inútil?
Não existe língua inútil.

Mas não é muito difícil?
É.
Não é fácil como aprender outras línguas latinas como Espanhol ou Francês, e também não existem muitas proximidades em vocabulário como no caso do Inglês.
Justamente por não ter proximidade com o Português como no caso das línguas européias, não existem "atalhos" para a aprendizagem. É um teste de resiliência.

Por que ao invés de estudar Japonês você não estuda Espanhol/Francês/Alemão/outro idioma?
Porque eu quero estudar Japonês.
Porque todos esses idiomas têm o mesmo grau de utilidade.
Porque todas as culturas das quais esses idiomas fazem parte são igualmente ricas.

Você acha que um dia vai pra lá?
Tô aqui. Muitos outros como eu também estão.

Mas você é descendente?
Não sou, e essa pergunta sequer faz sentido.
Existem muitos descendentes de japoneses no Brasil, e alguns deles mantém uma relação forte com a cultura de seus ancentrais. Assim como existem descendentes de italianos, portugueses, espanhóis, angolanos,alemães, moçambicanos, armênios, entre outros no Brasil, e alguns deles também mantém uma relação forte com a cultura de seus ancetrais.
Porém, não existe nenhum tipo de contrato de exclusividade nem de obrigatoriedade entre os descendentes de um povo e a cultura desse povo.
Um descendente de italianos não é obrigado a falar italiano, nem é esperado que o fale. E quando alguém estuda italiano, ninguém pergunta se essa pessoa é descendente de italianos.
Logo, não faz sentido relacionar o idioma japonês com os descendentes de japoneses.

Você é viciado em desenho japonês? (anime)
As vezes essa pergunta vem com a afimação "você deve ser otaku".
Eu pessoalmente não sou muito fã de desenhos em geral. Mas se eu fosse fã e estudasse Japonês por causa disso, teria um motivo tão legítimo para estudar quanto qualquer outro.
O mesmo vale pra quem gosta de moda japonesa, música, video games,etc. 

Mas esse negócio de anime não é coisa de criança?
Alguns anime são feitos para crianças, outros não.
Anime é apenas um tipo de entretenimento, como são as telenovelas e o futebol no Brasil, ou filmes e séries americanas em uma escala um pouco maior. O conteúdo varia, mas o objetivo é o mesmo - entreter.
 Há tanta infantilidade em animes quanto há em outras formas de entretenimento.
Se vestir de ninja dessa forma talvez seja coisa de criança


Pois é, muitos daqueles que tem interesse em Japão e resolvem estudar o idioma acabam tendo que responder uma dessas perguntas, enfrentam diversos tipos de provocação e acabam a motivação abalada.
Não desistam! Não deixem que gente ignorante os desanimem. Lembrem-se que, no fundo, as perguntas sem sentido e os comentários negativos são em geral muito mais reflexo da insegurança e desconhecimento dos provocadores do que qualquer outra coisa.


E você, já passou por alguma situação chata ou  teve que responder alguma pergunta estranha por ter interesse no Japão, estudar japonês, ou por qualquer interesse incomum? Comente.