sábado, 18 de julho de 2015

Que perguntas te fazem? Te acham exótico?

Quando a gente nasce e cresce em um lugar sem conhecer lugares e pessoas diferentes, é normal que tenhamos uma visão muito etnocêntrica do mundo. Também é normal que não tenhamos ideia do que pensam de nós.

Desde que sai do Brasil me tornei representante do país, referência sobre assuntos brasileiros e latino americanos, e alvo de comentários e perguntas que nunca fora perguntado antes. Algumas coisas eu já esperava, como comentários sobre futebol, carnaval, amazônia, bossa nova e outros clichês; porém  outras perguntas me foram completamente inesperadas. Com tantas perguntas sobre meu país e consequentemente minha identidade, eu acabei refletindo bastante sobre o Brasil.

Antes de começar a comentar as perguntas, quero lembrar vocês que elas não vêm apenas de japoneses, mas de pessoas de várias partes do mundo com quem tenho contato.

Vamos às perguntas:

Como é a Floresta Amazônica?
Pouca gente sabe quão grande é o Brasil, e que minha cidade natal ( São Paulo) fica longe da Amazônia.
Eu começo dizendo que é muito longe, e que demoraria cerca de 5 horas. Me respondem que 5 horas dirigindo vale a pena para poder ver uma floresta tão exótica e exuberante. Quando eu respondo que essas 5 horas seriam de vôo, as pessoas param por alguns segundos para pensar.

Qual a comida típica do Brasil?
Algumas pessoas se surpreendem quando eu descrevo a feijoada, outras ficam decepcionadas esperando que tivessemos algo mais exótico.
As vezes eu falo de churrasco, pizza, ou bolinho de chuva, mas em geral isso gera uma discussão de gente que tenta me provar que esses não são pratos "tipicamente brasileiros" e que não seriam tão saborosos quanto os supostos originais. Como não são todos os dias em que eu tenho paciência suficiente para iluminar alguém e livrar essas inocentes pessoas de sua ignorância elitista gastronômica, eu em geral eu só falo de coisas básicas mesmo.

Masp em São Paulo - um pouco diferente do que as pessoas imaginam que seja o Brasil.


Você não é muito branco para ser brasileiro?
Pra quem está lendo e não me conhece, eu sou branco de cabelos e olhos castanhos, tipo bastante comum em todo o Brasil.

Talvez por haver uma tendência mundial, fortemente influenciada pela mídia, em relacionar gente branca com Europa, America do Norte e Oceania ( Austrália e Nova Zelândia), e o fato de boa parte dos jogadores de futebol - exemplo mais comum de brasileiro que as pessoas mundo afora tem - serem negros ou pardos,  pouca gente espera que um brasileiro seja branco.

Outras pessoas, mais acostumadas a encontrar brasileiros por aí, não me estranham, mas sempre perguntam sobre os negros no Brasil, se a situação deles  é semelhante à dos negros nos Estados Unidos ou diferente.

Eu tento explicar que a população brasileira é bastante diversa, quase metade da população se considera branca, uma parcela um pouco menor mestiça( pardos), e que também existem muitos negros, "alguns" asiáticos, e, obviamente, "índios" ou nativos. Portanto é possível encontrar brasileiros que parecem com gente de qualquer outro país, não existe um "brasileiro padrão".

Por ser algo complexo de explicar para um leigo, eu simplesmente digo com toda naturalidade do mundo que é porque eu sou do sul.


O Brasil é um país ocidental/rico/primeiro mundo?
Pois é, segundo as notícias que tem se espalhado sobre a economia brasileira, o fato de ter uma copa do mundo e uma olimpíada em tão pouco tempo faz com que muita gente imagine que o Brasil é um país rico.
Rico ou não, não é o tipo de coisa que se explica rapidamente. Eu sempre digo que o Brasil está passando por transformações, que eu percebo pela mídia e pelas conversas que tenho com quem conheço que ainda está lá.
Se o Brasil vai chegar lá ou não eu não sei responder.

*nome de músico com cancões em espanhol* é famoso(a) no Brasil?
Eu gosto bastante de alguns artistas que têm músicas em Espanhol, mas é sempre difícil explicar que eu sou a excessão, que em geral as pessoas no Brasil só ouvem música em Português ou Inglês.

São Paulo é uma cidade tão grande assim? Maior que Kyoto?
Pois é, São Paulo é enorme, mas pouca gente tem ideia de que existem mais pessoas na cidade de São Paulo que em países como Suíça, Portugal ou Nova Zelândia.
São Paulo é umas 6 vezes maior que Kyoto.
E também tem gente que acha que a cidade do Rio de Janeiro é maior que São Paulo.

É verdade que todo brasileiro sabe jogar futebol?
Essa pergunta em geral vem como uma afirmação, "você certamente sabe jogar futebol muito bem!".
A resposta é sempre não. Eu sou perna de pau a prova viva de que existem brasileiros que não sabem jogar futebol bem.
Porém, comparado a outros países, existem muitos brasileiros que sabem jogar bem, Em geral todo brasileiro conhece razoavelmente as regras do esporte, os objetivos, nomes de clubes, e já jogou ao menos uma vez na vida.

Quando me perguntam o porquê disso, a coisa complica. É difícil explicar de onde vem essa relação maluca do futebol e o povo brasileiro. Chamam de "febre nacional", eu chamo de "doença nacional", apesar de ser um esporte sadio (especialmente se comparado ao Rugby), que une as pessoas, e dá assunto para conversas de elevador, é também o que aliena boa parte da população brasileira, dá apoio a torcidas violentas, e tem uma participação especial na corrupção.

Ah, quando eu conto que em dia de jogo da seleção brasileira em copa do mundo é decretado feriado, metade não acredita e a outra metade vai à loucura.

Este brasileiro aqui sim sabia jogar futebol.


Por que tantos imigrantes de tantos lugares diferentes foram ao Brasil?
Pouca gente entende minimamente de história a ponto de saber que a Europa e o Japão nem sempre foram ricos como hoje são. E que houveram épocas em que, para muita gente, valia mais a pena se aventurar numa terra desconhecida do que continuar sofrendo em seu próprio país.

Qual a origem da sua família?
Quem sabe que o Brasil é um país majoritariamente formado por imigrantes, tem curiosidade em saber de que parte do mundo meus antepassados vieram.
A verdade é que eu sei de alguns, e consigo especular umas coisas pelos meus sobrenomes, mas não sei muito. A maioria dos brasileiros não sabe. E nem importa na verdade.
Para não deixar ninguém decepcionado eu digo que minha família está no Brasil há mais de 10 gerações, e que por isso não sabemos, mas provavelmente vieram de algum canto da Europa e se misturaram com as pessoas daqui.

Como se diz *palavra aleatória* em Espanhol?
Muita gente acha que a língua oficial do Brasil é Espanhol. E mesmo aqueles que sabem bem que falamos Português no Brasil, assumem que, devido à proximidade com os outros países da America do Sul, e a proximidade entre as duas línguas, a maioria dos brasileiros sabe falar Espanhol sem problema algum. Nada mais longe da verdade.

Quantos nomes você tem?
Em muitos países, incluindo o Japão, as pessoas tem apenas um sobrenome, que em geral vem da família do pai, e um nome. Em algumas culturas as pessoas têm nome do meio (middle name). Mas não são comuns os casos de gente com quatro nomes.

As pessoas ficam confusas e admiradas com o fato de eu ter dois nomes e dois sobrenomes, além claro de um "de" entre meus nomes e sobrenomes, o que ajuda muito a confundir os asiáticos.

Alguns já me perguntaram se sou descendente da nobreza européia, por causa desse "de", o que me faz ter de explicar que regras européias não se aplicam no Brasil.

A título de curiosidade, recentemente eu passei a utilizar esse "de" quando assino algo para confundir as pessoas e deixar de ter problemas com bancos e outras instituições.

Todo mundo no Brasil fala Inglês?
Bom, se fala mais Inglês que Espanhol no Brasil. Mas ainda assim quase ninguém sabe.


Qual o idioma do Brasil? / Vocês falam 'brasileiro'?

Você fala "brasileiro"? ( Do you speak brazilian? ブラジル語話せるんですか?)

Dentre as perguntas que as pessoas me fazem por aqui, essa é uma das que mais me intriga, e uma das quais eu mais demorei até ter uma boa resposta.
A maioria das pessoas vai dizer que não existe língua brasileira, que se fala português no Brasil. O que não é mentira, mas nem sempre foi verdade.

Já existiu uma "língua geral brasileira" cunhada em terras brasileiras que não tinha nada a ver com o Português. Pena que foi banida e ninguém mais fala.

Hoje em dia se fala Português brasileiro, que tem uma série de diferenças com o Português lusitano e Português de outros países( Angola, Cabo Verde, Moçambique, etc).

É legal ver a cara de espanto quando explico que breakfast é "café da manhã" no Brasil e "pequeno almoço" em Portugal. E que existem palavras que utilizamos que tem origem em línguas indígenas, como "nhenhenhém" ( ficar de nhenhenhém), igarapé (rio), xará (pessoa com o mesmo nome), e tupiniquim.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Os japoneses falam Inglês?

Quem nunca veio ao Japão me pergunta coisas do tipo - os japoneses falam Inglês? É fácil se virar falando inglês no Japão? Como você faz na faculdade?

Quem já veio, seja para morar um tempo ou a turismo, reclama que quase ninguém fala Inglês e que é muito difícil conseguir informação.
"Hoje está em construção. Obrigado pela compreensão"

Eu mesmo já vi vários turistas tendo problemas em pedir informação para os locais e, como bom morador de Kyoto, fui ajudá-los. Após indicar direções e dar dicas sobre a cidade, a conversa invariavelmente vai pro mesmo ponto - por que é tão difícil achar gente que fale Inglês aqui?
País de primeiro mundo, até algum tempo atrás segunda maior economia do mundo, nível alto de desenvolvimento humano, educação de nível altíssimo, proximidade com os EUA e com a Austrália.

Apesar de tudo isso, e de estudarem inglês no ensino fundamental e médio por 6 anos, a maioria dos japoneses não consegue manter uma conversa ou mesmo responder a perguntas simples em Inglês. 

Em geral as pessoas colocam a culpa no sistema educacional japonês, onde o Inglês é ensinado através de um método ultrapassado de tradução, ênfase em livros didáticos cheios de gramática, e nada de conversação ou qualquer tipo de contato com material real como livros, filmes e música.

Há também uma grande valorização de exames de proficiência de língua inglesa (TOEFL, CPE, TOIEC, etc). É necessário ter um desses certificados para ingressar em alguns programas de pós graduação, intercâmbio, e para se conseguir empregos e promoções dentro de uma empresa.


Outras pessoas atentam para a grande diferença que há entre o Inglês e o Japonês. O que não há como discordar. Línguas de origem distintas, com pronuncia, gramática, entonação, sistema de escrita e vocabulários completamente diferente, é natural que os japoneses tenham dificuldade em aprender Inglês, assim como Ingleses e Australianos têm dificuldade em aprender Japonês.

Eu adicionaria um terceiro ítem à lista -  a distância cultural dos japoneses à cultura ocidental.

A maioria dos japoneses não tem muito contato com nenhum material cultural como livros, filmes, séries de TV, música, etc. Quem sabe Inglês entende que esse tipo de material é essencial no aprendizado, e sendo algo tão importante, dá pra perceber o efeito negativo que isso tem.

Pois é, eles não assistem Game of Thrones, nem Simpsons, não ouvem Eminem nem Arctic Monkeys.

Depende de onde você vai

Talvez para quem vem a turismo seja um pouco difícil achar alguém aleatoriamente na rua que fale inglês suficiente para um bate papo. Também não dá pra esperar que aquele senhor de 76 anos no templo vá conseguir explicar qual ônibus pegar para chegar ao centro comercial.

Mas em muitos lugares turísticos existem profissionais que falam Inglês e estão aptos a ajudar o turista perdido, ou pelo menos placas com informações básicas.

Em muitos restaurantes é possível encontrar menu  e mais algumas informações em Inglês.

Muitos alunos das universidades falam Inglês, é perfeitamente possível se virar dentro de um grupo de pesquisa apenas com Inglês. Arrisco dizer que é bem mais fácil do que seria tentar me virar apenas com Inglês em uma universidade brasileira.

Nas prefeituras e subprefeituras existem panfletos de informação não somente em Inglês, mas também em outras línguas incluindo o Português!


E no Brasil, as pessoas falam Inglês?
Algumas pessoas desavisadas me perguntam se o Inglês é língua oficial no Brasil, ou se a maioria dos brasileiros fala inglês com fluência. A resposta, obviamente, é não.

Apesar de sermos falantes nativos de uma língua européia com certa proximidade ao Inglês, e de muita gente saber quem é o Sheldon, pouquíssimas pessoas sabem Inglês.

Talvez seja o ensino fundamental e médio que é defasado e a pouca preocupação das universidades e empresas em se internacionalizar. Mas isso já é assunto para outro post...

segunda-feira, 25 de maio de 2015

As faculdades japonesas são gratuitas?

Universidade de Tokyo

É de conhecimento comum que a educação japonesa possui níveis muito altos, que a tecnologia e pesquisa produzidas neste país são de ponta. Mas poucos tem conhecimento de que educação superior não é algo acessível a boa parte da população.

Alguns sabem que o vestibular no Japão, e na Ásia em geral, é bastante disputado. Ingressar em uma universidade de grande prestígio no Japão é uma das condições essenciais para uma boa carreira. Porém, como não há vagas para todos nessas universidades, a disputa é bastante acirrada.

Muitas pessoas que conheço ficaram pasmas quando descobriram que a educação superior no Japão, mesmo nas universidades públicas, é paga.



Vou citar aqui o exemplo das universidades de Tokyo, Osaka e Kyoto, que são as três universidades públicas mais prestigiadas do Japão.


O preço salgado já começa no vestibular, que custa ¥17.000 (R$432,83*). Caso o estudante passe pela prova, há a taxa de matrícula de ¥282.000 (R$7.179,89*), e a anuidade de ao menos ¥535.800 ( R$13.641.78 *). Em outras palavras, a "mensalidade" dessas universidades é de ¥44.650 (R$1.136,82*). Alguns cursos são mais caros, como Medicina e Direito.

Já as universidades particulares em geral custam um pouco mais que o dobro disso, como a Universidade Sophia e a Universidade de Estudos Estrangeiros de Kyoto, ou chegam a valores muito superiores como a Universidade Waseda e a Universidade Keio.

Alunos de pós-graduação, mestrado e doutorado, pagam a mesma quantia.


Universidade Waseda
Para aqueles estudantes cuja família não tem como pagar, existem bolsas de estudo, nas quais o estudante é dispensado de ter de pagar mensalidade, e a possibilidade de pedir financiamento estudantil ao governo ( student loan, mais informações aqui).

Porém, conseguir uma dessas bolsas de estudo não é fácil, em geral é pedido que o aluno possua excelente desempenho acadêmico e que sua família esteja passando por dificuldades econômicas devido a consequências de algum desastre natural ou equivalente (informações aqui).

Já no caso do financiamento estudantil, vale lembrar que o estudante precisa devolver o valor recebido uma vez formado.

Parece muito caro e difícil cursar ensino superior no Japão, mas o Japão não tem exclusividade nisso, outros países como EUA, Inglaterra e China também não possuem universidades gratuitas.

Um fato interessante é que, apesar de quase não oferecer oportunidades de bolsa de estudos ou outros incentivos para nativos e estrangeiros que vivem como nativos no Japão, existem várias bolsas de estudos, descontos e tratamento especiais para estudantes de outros países que desejam cursar alguma universidade japonesa.

Pois é, nem só de maravilhas vive o sistema educacional japonês.

* valores em 24/maio/2015

domingo, 24 de maio de 2015

Sobre a bolsa de estudos MEXT - minha experiência

Muita gente me pergunta como eu vim parar aqui. Uns acham que eu vim por intercâmbio da USP, outros que eu vim para trabalhar, outros que é alguma bolsa como ciências sem fronteiras ou CAPES.

Eu não sou mais vinculado à USP, não estou trabalhando aqui, e também não possuo nenhuma dessas bolsas. Eu vim pela bolsa MEXT do governo japonês.

Trata-se de uma bolsa de estudos oferecida anualmente a países com relações diplomáticas com o Japão, o que inclui o Brasil.

As informações básicas podem ser encontradas no site do consulado japonês de São Paulo.

Como algumas pessoas me perguntam como foi o processo, vou tentar descrever aqui  como foi minha experiência.

Cerejeiras que me recepcionaram logo que cheguei.


I - Projeto de estudos e prova

O consulado japonês de São Paulo exige um projeto de 6 páginas para a inscrição para a pós graduação. O modelo é bem semelhante a o que normalmente uma universidade no Brasil vai pedir para o ingresso na pós-graduação, ou mesmo a um projeto de iniciação científica. Nenhum segredo quanto a isso.

Eu estudei Psicologia durante minha graduação, e decidi não mudar de área, escrevi meu projeto embasado nas teorias psicológicas que tinha estudado e no estilo de escrita praticado em minha antiga universidade.

Como não queria cursar pós graduação em assuntos que estavam entre os tópicos que estudei e pesquisei durante a graduação, decidi partir para um campo novo - estudar a imigração de brasileiros ao Japão na perspectiva da Psicologia Social¹.

Fui a palestras, simpósios e outros eventos que versavam sobre este tema e que me deram mais ideias sobre o que escrever no meu projeto.

Li muitos artigos científicos, teses e alguns livros sobre o tema². Fui tomando nota de tudo que parecia interessante e pensando em possibilidades.

Consultei professores universitários e amigos sobre como escever um projeto e quais assuntos seriam interessantes abordar.

Por fim, decidi abordar algo que chamei de " A formação da identidade do adolescente imigrante brasileiro no Japão".

Escrevi o projeto, pedi para vários amigos e um professor universitário (que é acima de tudo meu amigo) lerem e comentarem. Reescrevi o projeto com base nos comentários e sugestões até chegar em uma versão aceitável.

Fiz a inscrição.

No meio tempo, ia estudando Inglês e Japonês, eu já falava, lia e escrevia Inglês com certa facilidade, mas meu japonês era básico, algo como o nível N4 do exame de proficiência.

Eu fiquei exausto depois das provas, mas senti que tinha feito algo bem, que tinha feito tudo que podia fazer ali.

Fui aprovado para a fase da entrevista.

II - Entrevista e preparação de documentos

A entrevista é carregada de formalidades( como eu descobriria depois que muitas coisas no Japão são assim), é esperado que os canditos se apresentem em vestimentas formais, ou seja, terno e gravata.
Em 15 minutos me pediram para explicar meu projeto, qual a viabilidade e importância de tal estudo, além de algumas perguntas mais específicas sobre o que estava escrito no projeto e sobre meus planos futuros.

Me lembro de ter saído da entrevista com a cabeça cheia e bastante estressado pela tensão do momento. Também me lembro de ter ido direto a um bar após a entrevista e ter pedido uma dose de cachaça e uma garrafa de cerveja logo que cheguei. Não me lembro do que mais aconteceu neste dia.

Este era o ano de 2011, ano em que o Japão sofreu muito com o chamado "grande terremoto do leste do Japão", algo que afetou o Japão em muitos aspectos, o que inclui a concessão de bolsas para pesquisadores estrangeiros.

Por causa disso, o consulado japonês de São Paulo deixou algumas pessoas "suspensas" do processo de bolsas de estudo MEXT após a fase da entrevista, ou seja, ainda não haviam decidido se algumas pessoas seriam aprovadas definitivamente para ir ao Japão ou não. Eu era uma dessas pessoas.

Depois de várias semanas de espera e incerteza, o consulado finalmente me informou que eu não fora aprovado.

Fiquei bastante desapontado e não sabia o que fazer da vida, se tentaria novamente ou se seguiria minha vida de outra forma.

III - Repensando o processo e prestando novamente

Depois de começar a trabalhar normalmente em uma empresa, ganhar meu próprio dinheiro, ter uma vida estável, e ouvir um monte de gente me falando que eu estava me dando muito bem no meio organizacional e que não havia necessidade de um intercâmbio eu decidi que iria tentar a bolsa de estudos novamente.

Por causa do emprego eu tive menos tempo para me preparar, mas como já tinha chegado tão perto talvez não precisasse de tanto tempo me preparando.

Segui a mesma fórmula para escrever o novo projeto -  li livros, artígos e teses,  assisti palestras e participei de mais simpósios, me consultei com amigos e pessoas ligadas ao meio acadêmico. Em suma, me aprofundei mais no assunto e resolvi escrever sobre o que chamei de " adaptação dos imigrantes brasileiros no Japão".

Meu Japonês já tinha melhorado consideravelmente( nível próximo ao N3 do exame de proficiência), e resolvi estudar a gramática do inglês com mais profundidade, para não ter problemas com nenhuma questão.

Eu passei na prova sem grandes problemas. A entrevista foi um pouco menos pesada, mas eu fui pro mesmo bar depois.

Desta vez eu fui aprovado!

Apenas a título de celebração



IV - Documentação e procura por universidade

Uma vez aprovado pelo consulado, é necessário que todos os documentos usados para a inscrição, além de um punhado de outros documentos, sejam traduzidos para o Inglês ou Japonês para que sejam enviados ao Japão. Dá um trabalhinho, mas compensa 100%.

Uma vez que todos os documentos estejam traduzidos, é necessário que se entre em contato com Universidades e laboratórios no Japão para que se peça uma carta de aceitação, ou seja, era preciso que algum laboratório de alguma universidade japonesa me aceitasse como aluno pesquisador e talvez futuro mestrando.

O consulado pede até três cartas de aceite. Eu contactei seis universidades japonesas, mas só fui aceito em duas delas. Uma dessas foi exatamente a universidade em que gostaria de estudar.

A maioria das universidades me rejeitou por causa do meu projeto, a metodologia e o tema não eram assuntos normalmente abordados nos laboratórios de Psicologia do Japão.

Depois de um tempo aqui que eu fui perceber que a Psicologia no Brasil e no Japão funcionam de maneiras bastante diferentes ( algo que eu quero explorar num post futuro).

O laboratório que me aceitou, o fez com a condição de que eu modificasse meu projeto para se enquadrar nos tipos de pesquisa que são realizadas nele.

V - Preparativos finais e partida

Após o envio de todos os documentos para a universidade no Japão e para o Ministério da Educação  japonês não restava muito a fazer que não esperar.

Tivemos uma reunião no consulado japonês para orientação para o embarque, integração dos bolsistas e algumas dicas sobre o Japão.

Arrumei minhas coisas, me despedi da minha família e dos meus amigos, e vim.

Vista da janela do avião a caminho do Japão.


Para saber mais sobre as bolsas MEXT

Recomendo baixar os ebooks "Guia da Bolsa MEXT - Graduação" e "Guia da bolsa MEXT - Pós Graduação" gratuitamente clicando aqui.

Consulados Japoneses no Brasil

Site oficial do MEXT


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¹ Quando escrevi o projeto, achva que Psicologia Social era algo que falava por si, mas na verdade existe uma gama enorme de "Psicologias Sociais" que podem ser semelhantes ou bastante diferentes.

² Para quem se interessa no assunto, recomendo três livros:
Psicologia, E/Imigração e Cultura - Sylvia Dantas
A identidade cultural na pós modernidade - Stuart Hall
A negociação da identidade nacional - Jeffrey Lesser







sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Kamogawa - O rio dos patos

Antes de vir para Kyoto eu tinha a imagem de templos e universidades na minha cabeça - o que não é mentira, Kyoto é um destino turístico muito popular e possui uma alta concentração de universidades.

Quando cheguei fiquei surpreso com o rio que corta a cidade, e confesso que cada dia fico mais maravilhado com o impacto que esse rio tem na vida das pessoas aqui.

Quem vive ou já viveu em cidade cortada por um rio, ou que beira um rio, sente o quão importante é o rio para a cidade. O rio mostra a vitalidade da cidade, o quão saudável é viver nela, a limpeza do rio mostra o quanto os habitantes e as autoridades se importam com a vida na cidade; a presença de animais no rio mostra o quão degradado, ou não, o rio foi ao longo do tempo; e assim por diante.
O rio também divide, muitas cidades, estados, províncias, e até países, têm como fronteira um rio. Kyoto não é excessão, há muitos anos a cidade " de verdade" era delimitada pelo rio e por ruas numeradas de um a dez.

Com o tempo Kyoto se expandiu para além dos rios Kamo e Katsura e das dez ruas, estendendo-se até as montanhas ao norte, leste e oeste e a cidade de Uji, ao sul.

Claro que isso me levou a pensar em São Paulo, minha cidade natal, cujos rios podres dividem pobres e ricos, transmitem doenças e estão ali para lembrar a população do descaso do governo dos últimos anos e da própria urbanização escrota pela qual a cidade passou. Aliás, recomendo este documentário aqui sobre o assunto.

Mas voltemos a Kyoto...



No primeiro dia em que estava andando pela cidade eu achei muito legal o fato do rio ser tão vivo, e fiquei pasmo com o número de patos que vivem no rio. Fiquei curioso para saber qual o nome desse "rio cheio de patos". Acabei tendo uma agradável surpresa quando descobri que o nome desse rio é literalmente "Rio dos Patos" ( 鴨 Kamo - pato; 川 gawa/kawa - rio).

Não apenas patos, este rio também é lar para muitos peixes, corvos, castores, águias, morcegos que vivem debaixo das pontes, e até cobras e salamandras.
Por falar em salamandra, em 2014,  um morador de Kyoto avistou uma salamandra gigante saindo do rio, gravou um vídeo e o bicho acabou ficando famoso na internet ( notícia aqui).




Pessoas fazendo caminhada ao longo do rio, jogando petanca, jovens praticando algum instrumento musical, casais namorando, crianças brincando, pessoas passeando com seus cachorros, e até mesmo pescando são cenas muito comuns aqui.



Festivais e eventos também acontecem ao longo do rio.  Por exemplo o Kyo no Tanabata, ou festival Tanabata de Kyoto, no qual as margens do rio ficam enfeitadas e acontecem diversas exposições de arte.





Outro evento interessante, e bastante curioso, é a maratona do papai noel que tradicionalmente acontece em dezembro nas margens do Kamogawa.




A paisagem do Kamogawa muda bastante durante o ano:
Na primavera as cerejeiras e suas pétalas rosas dão o clima perfeito para pique-niques; no verão os restaurantes e cafés montam terraços nas margens para que seus clientes possam desfrutar da brisa e da vista que o rio provém; no outono é possível ver lindas folhas vermelhas e amarelas enfeitando as margens; e no inverno a neve cobre as magens dando um toque especial à vista.

Pessoas se divertindo fazendo pique-nique à beira do rio desfrutando da primavera.




Terraços montados especialmente para o verão. Casais e famílias inteiras aproveitando o frescor da beira do rio.

Neve dando toques à paisagem.

Neve cobrindo as márgens depois de uma nesvaca.
Márgem próxima à ponte Sanjo. Um dos pontos mais populares do Kamogawa totalmente coberto por neve.

Folhas de outono colorindo as márgens.




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Entrevista ao blog O nome disso é Mundo

Há alguns meses eu fui entrevistado por Filipe Teixeira do blog " O nome disso é mundo" - www.onomedissoemundo.com .

O blog trata, entre outras coisas, de viagens, vida fora do Brasil e entrevistas com brasileiros que vivem ou viveram  em outros países. Por um acaso de ter um contato em comum com o tal Filipe Teixeira eu fui convidado a ser entrevistado e acabei aceitando. Gravamos a entrevista via Skype, com muito sofrimento devido a inúmeras interrupções causadas porque  eu passei do limite diário de internet do plano que contratei pela péssima conexão de internet que tinha na época.

De qualquer forma, espero que gostem.

Clique aqui para ser direcionado ao post com a minha entrevista.
Aqui para acesso direto ao áudio.
E aqui para acessar o blog

Templo Kumano na neve



http://www.onomedissoemundo.com/2014/10/040-observando-trens-no-japao.html

sábado, 3 de janeiro de 2015

E a comida, como é?

Primeiramente alguns fatos que muita gente não imagina:
- Não se come sushi todo dia no Japão, não é algo que se encontra em toda esquina e não é tão barato quanto se pode imaginar.
- Além de peixe cru, também se come peixe frito, assadado e cozido.
- A culinária não é toda baseada em peixe.
- Nem tudo aqui é saudável.
- Há muita fritura na culinária japonesa.
- Japoneses comem espaguete de garfo e colher.
 
Típico almoço/jantar japonês. Tem peixe aqui mas é coincidência



Em geral uma refeição comum no Japão consiste em arroz, missoshiru, alguns legumes e alguma carne ( em geral frango ou porco).  Em um restaurante comum isso pode variar de 400 a 1500 ienes (4 a 15 dólares americanos).

Outra opção comum é o Lamen (ラーメン), que se trata de macarrão imerso numa sopa, as vezes com algum companhamento como carne ou vegetais. Varia entre 700 a 1400 ienes ( 7 a 14 doláres americanos).
Lamen. Cai muito bem depois de algumas cervejas antes de voltar pra casa de manhã.

Levando em consideração esses pratos, é de se imaginar que o custo da comida é razoavelmente barato, ainda mais se comparado ao custo de uma refeição fora de casa em São Paulo.
A verdade é que é possível sim se alimentar com pouco dinheiro no Japão, ainda mais se valendo de redes de fast food japonês como Nakau, Matsuya, Yoshinoya, Sukiya, etc.


Sobremesa?
Exsitem várias opções! Doces ocidentais como bolos, sorvetes, tortas, etc são bastante comuns.
E também existem doces mais tradicionais, como feijão doceraspadinhaanmitsukasutera (um tipo de pão de ló), e por ai vai...


Sobremesa com raspadinha de chá verde, sorvete de creme e feijão doce.
Frutas?
Se comer fora pode ser barato comparado a outros países, frutas por outro lado são ridiculamente caras. Uma maçã custa em média 100 ienes (cerca de 1 dólar), um cacho pequeno de bananas 300 ienes( cerca de 3 dólares),  um cacho de uva 600 ienes ( cerca de 6 dólares), e assim por diante.
Por serem caras, muitas vezes frutas são vendidas em embalagens especiais. Algumas vezes são dadas como presente em certas datas especiais e quando se visita um amigo hospitalizado.



Uvas de 5000 ienes ( mais ou menos 50 dólares)
E os vegetarianos?
Apesar de também bastante cara, carne está presente na maioria dos pratos. Algumas vezes apenas como tempero ou decoração.
São raros os pratos vegetarianos e raríssimos os veganos.
Quase não existem japoneses vegetarianos e em geral as pessoas sequer entendem o que significa ser vegetariano, o que vegetarianos comem, o que não comem, e os porquês de o serem.
Quando se vai a um restaurante, geralmente se pergunta ao garçom se há a possibilidade de um prato vir sem carne e, caso sim, explicar que "sem carne" significa não somente sem carne bovina, mas também sem frango, peixe e frutos do mar. Mesmo assim ainda existem vezes que os funcionários do restaurante se confundem e acabam trazendo a comida com algum tipo de carne. É complicado.